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30.abr.04
Expectativa

A 70 metros e, porventura, a menos de um dia de distância da maior cratera observada de perto na superfície de Marte.
(site oficial / imagens da missão)
29.abr.04
Possibilidades

O Photoshop é o equivalente da cirurgia plástica. Opera maravilhas, mas não verosimilhança. A relva nunca é assim tão verde.
Voragem

A rua desaparece a cada virar da esquina.
Soundbytes
"O SAPO dá muita importância à sua opinião. (...) Contamos lançar brevemente um questionário deste tipo, mas acerca dos Blogs, de forma a que possamos adaptar a plataforma às necessidades e exigências dos nossos Clientes." link
«Os senhores são funcionários?»
1. Grab the nearest book.
2. Open the book to page 23.
3. Find the fifth sentence.
4. Post the text of the sentence in your journal along with these instructions.
via Daily Bytes
28.abr.04
Quase lá

Menos de duas centenas de metros para a Opportunity alcançar o seu objectivo.
27.abr.04
Passou despercebido na origem, mas achei importante citar esta entrada d'O Vento lá Fora:
Hoje almocei com um velho amigo que não via há uns anitos. Ele não tem blogue. «Não tenho tempo». Porém, é um leitor atento e dedicado da blogosfera e tem sobre ela uma visão nítida e esclarecida. Às vezes pensamos que escrevemos uns para os outros e que a blogosfera é composta por prodo-consumidores de informação (produtores e consumidores em simultâneo). (...) Há uma massa invisível de leitores de blogues, gente que gosta, tem as suas preferências, aprende, lê. Lê, sublinho. E digo invisível porque raramente se manifesta. Mas estão lá. Fazem parte das estatísticas. É bom não os esquecer."
Os leitores, visitantes, constituem o único corpo despretensioso da blogosfera - a tal maioria silenciosa que tem sempre maior capacidade de discernimento.
Hoje fizeram-me muitas perguntas sobre os blogs e a blogosfera, mas a que mais retive foi aquela que surgiu mais como uma asserção do que propriamente uma interrogação: Já não és capaz de largar o blog..
Nesse preciso momento dei-me conta que mesmo que na próxima semana decida acabar com o icosaedro, muito provavelmente estarei de volta na semana seguinte, debaixo do mesmo ou de outro endereço. É a diferença entre continuar como antes ou dizer "existo e esta é a prova disso" sempre que se carrega naquele botão "Publicar".
Será possível voltar a ser tudo como antes, depois de dias e dias a afirmar, perante uma plateia desconhecida e potencialmente ilimitada, que se existe?
Soundbytes
"The fighting in and around Baghdad has gotten so bad that reporters are growing out of touch with the nation's regular citizens, said Washington Post veteran foreign correspondent Anthony Shadid, during a panel discussion Friday at the American Society of Newspaper Editors conference here. "You are starting to see a little bit of a siege mentality," he said about reporters in the Iraqi capital. "Reporters are too secluded from the country they are covering."
Danger in Iraq Isolates Reporters, via Kinja.
Jornalismo no Iraque
Há já alguns meses que reparei como os directos e as reportagens de vários canais de televisão noticiosos na capital do Iraque deixaram de ser apresentados pelos correspondentes de guerra mais familiares. O fim da guerra propriamente dita, e a rotação normal dos repórteres explicam, em parte, essa ausência, mas existe ainda uma história por contar, a da retirada generalizada de muitas organizações jornalísticas do Iraque. Também não sei se seria capaz de permanenecer no Iraque, nas condições actuais de insegurança, provocadas pelos ataques rebeldes, e isso só faz com que sinta mais respeito pelos profissionais que optaram por ficar para trás e por aqueles que, sendo iraquianos, não podem voltar - são eles que, na maioria dos casos, e a contrato com as agências noticiosas internacionais, mostram ao mundo a destruição causada por esses cobardes ataques.
É também por essa razão que quero que mais forças internacionais de manutenção da paz cheguem ao Iraque o mais brevemente possível - a situação actual no país, ao contrário do que possa parecer, só vem pôr ainda mais à prova todos aqueles verdadeiramente interessados na paz e estabilidade do Iraque. Desengane-se quem pensa que o único que tem algo a perder são os EUA e Reino Unido. A forma como o resto do mundo responder à situação naquele país também irá constar da História.
"Toda a escrita traz consigo a ideia da Morte."
Teoria do Texto
Diário de uma embrulhada
A controvérsia em torno do Diário de um Jornalista (entrada anterior) continua, agora que o assunto extravasou a blogosfera e se tornou matéria jornalística. Logo no dia a seguir a este artigo de Pedro Fonseca, a história conheceu outro desenvolvimento, com a publicação da resposta da editoria do Primeiro de Janeiro (o jornal em causa) no Diário de Notícias. Do outro lado da barricada, no sítio que deu origem a tudo isto, o Diário de um jornalista, vem a garantia de que prosseguirá a denúncia das condições de trabalho vividas no Primeiro de Janeiro.
A situação já era suficientemente confusa para agora nas caixas de comentários de vários blogs interessados em jornalismo começarem a surgir novas e estranhas revelações sobre os intervenientes; em suma, está a perder-se sucessivamente o foco daquilo a que os autores do Diário de um Jornalista dizem ter sido a sua intenção chamar à atenção desde o início - creio que fracassaram logo desde o primeiro momento, na forma como decidiram fazê-lo, o que certamente não contribui para agora melhor discernir a reacção das chefias do Primeiro de Janeiro (embora não me pareça ter sido das melhores). Talvez essa seja uma das lições a tirar de tudo isto.
26.abr.04
Soundbytes
"Os blogues já não são a brincar."
Daniel Oliveira, no Barnabé
25.abr.04
Slogans
Ainda na série dos lemas dos canais da TV Cabo, surge este, do Canal de História:
"Desde o passado mais remoto até ontem à tarde."
Politicamente incorrecta
É luso-americana, católica, rica, contra a legalização do aborto, republicana (até há um ano atrás) e conhecida por responder sem papas na língua a toda e qualquer questão que lhe seja colocada. Não admira, portanto, que seja o pior pesadelo dos responsáveis pela campanha de John Kerry, o seu marido, para a presidência dos EUA. O seu perfil deu um interessante artigo na Newsweek desta semana: Teresa Heinz Kerry.
Som ambiente

Gosto da ideia de fazer música de janelas abertas para o mundo lá fora - de repente fica-se sem saber qual das sintonias estava primeiro. Excerto dos Sons de Belgais, dica da F.
25 de Abril
Nasci dez anos depois, pelo que não posso ter a mesma experiência ou idealização do 25 de Abril de 1974, dos anos e dias que o antecederam e daqueles que imediatamente lhe seguiram. E não posso senão gostar dessa sensação, de saber que o Portugal da minha geração é outro, e que o nosso futuro depende de nós desde o primeiro momento.
Gosto do facto de poder reconhecer e ao mesmo tempo estranhar, sem nunca ter vivido, aquela Lisboa a preto e branco das fotografias, aos olhos de hoje tão crua. E gosto de saber que neste Portugal, plenamente democrático, o som do rolar dos tanques e a visão de um mar de gente tão grande nas ruas de Lisboa são impensáveis - as armas, as manifestações e os desafios são outros.
Três décadas depois, no Portugal democrático em que muitos já nasceram, não existe espaço para qualquer desilusão, por mais dificuldades e incertezas que o assolem. É o melhor que conhecemos, e o único com bastante espaço para melhoramentos.
23.abr.04
Sem rumo
Os e-mails não respondidos, a inércia face ao conteúdo de alguns blogs no Top25 e a aparente abstracção ao feedback recebido fazem-me suspeitar que os Blogs do Sapo estão, há já algum tempo, em piloto automático. Gostava, sinceramente, de ver algumas correcções e melhorias feitas à plataforma, mas parece-me que com uma máquina tão bem oleada, para funcionar sozinha, só o técnico destacado para evitar interrupções no seu funcionamento não chega. A PT pode fazer muito mais, e com pouco esforço.
Piloto e co-piloto precisam-se.
Curtas (act.)
- O Céu Sobre Lisboa testou a nova linha do metro para Odivelas, e voltou com outra "banda fotográfica" (como alguém nos comentários lhe chamou) - vale mesmo muito a pena ver, sobretudo as "janelas para a paisagem" da estação do Senhor Roubado;
- A denúncia - Tem-se discutido muito a relação entre os blogs e o jornalismo, e o que ambos podem aprender um com o outro, mas onde os blogs já têm um papel determinante é no exercício da cidadania: «Empresas que exploram pessoas» (ou quando os cidadãos se mobilizam antes da DECO), via Luís Rijo:
- No Diário de Lisboa, mais especificamente neste post, o exemplo de como pode ser surreal seguir pela Internet o percurso de uma encomenda vinda do outro lado do mundo;
- Se mais provas fossem precisas de como o Gmail não invade a privacidade dos seus utilizadores, eis a comparação do número de dados pessoais que os três maiores serviços de correio electrónico gratuitos exigem, logo à partida, para criar uma nova conta (e sim, ainda me sinto estúpido por ter achado que era "um de poucos" utilizadores do Blogger a testar o Gmail...);
- Já agora, o Curtas: «Quando não há palavras: imagens».
22.abr.04
Antes e depois
Há já algum tempo, no Manancial da Noite: «Este é, de resto, um tema pouco consensual. Se por um lado temos os "puristas" que defendem que qualquer fotografia "manipulada" não reflecte imparcialmente a realidade, perdendo dessa forma grande parte da sua originalidade, documentabilidade e beleza, por outro temos aqueles que não têm qualquer pudor (ou preconceito) em alterar uma imagem no intuito de salientar um pormenor ou uma nuance ou pura e simplesmente por diversão.
Claro que o propósito com que se tira uma fotografia determina aquilo que podemos ou não fazer com ela em matéria de pós produção, mas este é um assunto a debater noutro post...»
Espero que volte ao assunto, até porque é uma questão que, não sendo endereçada muitas vezes, desperta o meu interesse. No entanto, o que eu queria com a citação do Manancial da Noite era, de alguma forma, enquadrar um recente post num dos blogs que costumo visitar, o 1976design.com, no qual o seu autor admitiu manipular e retocar (e que retocagem) algumas das suas fotografias - tendo, para o efeito, mostrado o antes-e-depois de algumas delas (à esquerda).
Estar consciente dessa manipulação fotográfica não alterou a minha percepção do blog ou das fotografias lá publicadas, mas fiquei espantado com o ponto até que algumas delas foram manipuladas (pode ser que esteja a ser ingénuo, e que sejam evidentes pelas fotografias alguns sinais de que foram manipuladas). Mais exemplos podem ser encontrados no post original.
Concordo com o autor quando este afirma que só porque algumas fotografias ficam mal, não é absolutamente necessário que tenham de ser colocadas de lado - o Photoshop, por exemplo, pode "salvar" fotografias que por alguma razão tenham ficado aquém das expectativas, embora eu não considere que acrescentar a ponta da asa de uma ave seja tão "natural" quanto, por exemplo, alterar a luminosidade ou contraste de uma imagem (quando estamos a falar de imagens que são apresentadas, supostamente, tal e qual foram tiradas).

Autor: Bijan B. (link via Photosig)
Um blog não é, nem consegue ser, um espaço de certezas absolutas. Por vezes é preciso parar o curso do raciocínio e admitir que estamos perdidos. É o meu caso. É numa espécie de meio termo, longe da convicção, mas, infelizmente, não suficientemente perto da incerteza, que tenho estado nas últimas horas. Em grande parte, por causa da opinião de Pedro Fonseca acerca do despedimento de dois autores do Diário de um jornalista (posts anteriores) - que veio descarrilar a minha opinião.
Consigo compreender como é que Pedro Fonseca encontra razões para condenar, nos termos mais vigorosos, as chefias daqueles jornalistas, a começar pelo facto de que são eles os responsáveis pelas condições de trabalho que levaram em primeiro lugar à criação daquele blog. Todavia, não consigo deixar de pensar que a liberdade de expressão não pode ser praticada de qualquer forma, e em qualquer circunstância, ou seria aceitável que aqueles jornalistas se dirigissem aos seus superiores hierárquicos, nos mesmos termos, e de forma anónima, no interior da redacção? Ou não haverá um ponto a partir do qual uma crítica, pelo seu tom e pela sua exposição pública, põe em causa toda a organização e o ambiente redactorial?
Será realista contar com uma atitude construtiva da parte das chefias, quando confrontadas, por sua vez, com críticas pouco construtivas? A forma pode ser tão importante quanto o próprio conteúdo.
Pedro Fonseca coloca a questão de saber se as chefias podiam ter reagido de outra forma, sem partir imediatamente para o despedimento. Gostava de pensar que sim, mas, sinceramente, não vejo como. Isso coloca, contudo, todo o tipo de questões e problemas a que não consigo dar resposta. Por exemplo, se é aceitável que alguém despeça um funcionário com base naquilo que este escreve num blog, independentemente dos termos e do "tom" que utiliza, então importa saber que tipo de jurisdição é que um superior hierárquico pode exercer sobre um blog, ou sobre qualquer outra manifestação da opinião de um funcionário. Pode alguém ser despedido por expressar a sua opinião, nos termos mais violentos, frente a um órgão de comunicação durante uma greve ou manifestação? São questões demasiado problemáticas, a que, como já disse, não consigo oferecer respostas, embora não me pareça que tenham uma resposta genérica e peremptória.
A única coisa que temos como facto, infelizmente, é que duas pessoas perderam o seu emprego.
Actualização
Dois dos jornalistas que participam no Diário de um Jornalista (ver post anterior) foram despedidos da organização para a qual trabalhavam, alegadamente por causa do conteúdo do mesmo. Longe de ser inédito lá fora, nomeadamente nos EUA e no Reino Unido, este é muito provavelmente o primeiro caso em Portugal em que um blog esteve na origem de um despedimento, e logo num meio de comunicação social.
A liberdade de expressão está sempre em causa, todavia, é preciso que seja dito, o recurso ao anonimato, sobretudo quando são feitas referências abertas ao jornal para o qual trabalhavam, e a adopção de um tom por vezes demasiado desaforado, podem ter contribuído para este desfecho.
Nota: Acabo de ler a reacção do Contrafactos & Argumentos, que sobre este assunto pensa de forma diferente.
21.abr.04
Excerto de um artigo publicado no Público: «Desde aí que os guarda-freios comunicam entre si por sinais de luz. Cátia Sofia, que exerce estas funções há dois meses, explica que é sempre o guarda-freios do ascensor que está na ponta inferior do percurso que decide quando é altura de ele subir e de o seu parceiro descer - seja porque já passaram os dez minutos de intervalo médio entre cada viagem, seja porque o carro está cheio. O sistema mecânico obriga a que, quando um ascensor sobe, o outro tenha de descer. Os sinais de luz são emitidos através das lâmpadas instaladas nos veículos.
"Quando ele lá de baixo me envia uma luz forte é sinal de que devo descer, quando a luz é fraca é sinal de que ainda não tem passageiros suficientes. Nessa ocasião, se eu aqui em cima já tiver passageiros, respondo-lhe com uma luz forte. Se eu lhe apagar a luz dele significa que também não tenho clientes, e nessa altura ficamos parados, à espera que apareçam".»
(artigo na íntegra, no Público)
No dia em que tirei esta fotografia, os dois ascensores, para sempre desencontrados, puderam finalmente ficar à conversa a meio caminho, avariados.
The first wave
Ao que parece, segundo outros relatos que encontrei na net, fui um dos milhares de sortudos (eu tento convencer-me que é só de uma conta de correio que se trata, mas nada feito) seleccionados pelo Blogger para testar a versão Beta do Gmail. Só precisei de fazer o login na minha antiga conta no Blogger para ser brindado com um convite para criar um endereço electrónico. A selecção deve ter sido completamente aleatória, mas não deixa de ser um privilégio experimentar em primeira mão o Gmail.. sou só humano, e um computer geek..
Gmail

Na imagem, e em relevo, os pequenos anúncios de contexto que o Google seleccionou automaticamente para apresentar com base no conteúdo do meu primeiro e-mail recebido pelo Gmail, enviado, paradoxalmente, pelo próprio, para dar as boas vindas ao novo utilizador e enumerar as principais características do serviço.
Como é visível, demonstrando a natureza automática e "isenta" da publicidade no Gmail, um dos anúncios de contexto questiona-nos até sobre o bloqueio do Gmail, possivelmente devido a alguns receios (infundados) com as garantias fornecidas pelo Google que a privacidade e confidencialidade dos seus utilizadores será respeitada.
Sou um entusiasta Google, como já deve ter dado para perceber, e por isso um suspeito na matéria, mas, pessoalmente, não vejo nada que à partida distinga o Gmail de outros serviços de e-mail gratuitos no mercado, pelo menos, no que toca à privacidade. Ocorre precisamente o oposto, uma vez que tenho reparado como o Google se tem esforçado por endereçar e tranquilizar quaisquer preocupações em relação ao seu serviço.
O verdadeiro teste ao Gmail, na minha opinião, será a forma como este lida com spam - a razão que me levou já a abandonar várias contas de correio no Hotmail e no Yahoo! Mail.
Para já, thumbs up.
Você soube-o primeiro aqui (ou não..) :-)
O Blogger começou a distribuir aos seus utilizadores contas de correio electrónico no novo serviço Gmail. É a oportunidade para conhecer de perto o novo empreendimento do Google, e começar a testar a anunciada capacidade de 1000 Mb.
icosaedro @ gmail ponto com :)
20.abr.04
Marte, um dia
Naquele dia, infelizmente, não foram as espantosas imagens vindas da superfície de Marte que estiveram nas notícias, no entanto, 11 de Março não pôde deixar de ser um dia como outro qualquer em Marte e para os controladores das duas sondas da NASA. Foram essas 24 horas que a MSNBC calhou acompanhar de perto e que agora relata num extenso mas interessante artigo sobre os bastidores da complexa e muito dispendiosa operação que é comandar duas sondas em Marte, através de três fusos horários diferentes e de milhões de quilómetros de distância.
Para eventuais interessados, Um dia na vida de uma sonda em Marte.
Perto do coração, longe das rotinas
Auto-intitulou-se Diário de um jornalista e é um blog em que participam vários profissionais da comunicação, tanto quanto é dado a saber, em regime de estágio na área comercial de uma publicação noticiosa do Porto. A descrição das suas condições de trabalho, de que é dado o exemplo, entre outros, da realização de entrevistas a "fora de horas", e uma manifesta frustração com o seu estatuto profissional algo ambíguo, segundo eles, repetidamente desprezado pelos que se acham “verdadeiros jornalistas”, são as razões que apontam para a criação do blog, e a motivação que originou a vinda a público.
Não tardou muito, porém, até que o próprio relato do trabalho desenvolvido pelos autores deste blog começasse a causar alguma estranheza. António Granado, jornalista do Público e autor do Ponto Média, não hesitou, no meu ver correctamente, em chamar a atenção para o facto do trabalho exercido por estas pessoas, tal como foi descrito no seu blog, ser «tudo menos jornalismo, lamento dizê-lo. Ou será que se considera jornalismo entrevistas marcadas pelo departamento comercial a troco de publicidade?». Esta tentativa de elucidação dizia respeito a apenas isso, uma aparente confusão entre o que significa, por um lado, ter uma licenciatura ou experiência na área jornalística, e por outro, o desempenho de funções radicalmente opostas às que se esperam de um jornalista no activo.
Os autores do Diário falam em teimosia, para justificarem o não reconhecimento do seu trabalho, a publireportagem – em que uma empresa ou pessoa paga pela promoção e divulgação numa publicação de um produto ou actividade por si desenvolvida –, como algo tão válido e meritório quanto aquele realizado diariamente nas redacções dos jornais. A confusão fica patente quando afirmam utilizar as mesmas práticas e valores a que os jornalistas se submetem obrigatoriamente, esquecendo-se de que só a utilização da técnica jornalística (das suas regras e maneiras de dar a conhecer um acontecimento) não chega para dizer que estão, de facto, a exercer a profissão de jornalista.
Não se trata de estar para aqui a verificar quem é ou não jornalista, o que até podem todos ser, mas, sim, de delimitar claramente onde o exercício desta profissão acaba, e o da publicidade (ou outra) começa. Trate-se de jornalismo ou de outra coisa qualquer, o que não está em causa é que as suas condições de trabalho possam ser injustas e desadequadas ao que se pretende que seja o objectivo da sua actividade.
Todavia, enquanto indivíduos licenciados na área de jornalismo, é crucial que saibam reconhecer abertamente, para o exercício sério e rigoroso da sua actual actividade (que pode ser ou não jornalística), as diferenças entre para o que foram efectivamente treinados e aquilo que dado o seu conhecimento das técnicas jornalísticas lhes permite executar na área da publicidade e das relações públicas, áreas que, por definição, recorrem às técnicas jornalísticas enquanto meio de divulgação e promoção.
Existe uma incompatibilidade insolúvel entre jornalismo e área comercial, muito embora aqueles que as executem se considerem jornalistas, porventura, legitimamente, por causa da sua formação e experiência enquanto tal.
«Assumimos a publireportagem como a nossa realidade, mas tal não invalida nem a qualidade nem a seriedade do nosso trabalho» - algo que, pelos artigos que me foram dados a conhecer, em vários blogs de jornalismo, nunca foi posto em causa.
Outro assunto distinto, que não pretendo desenvolver, é a maneira como estes jornalistas se manifestam na blogosfera, sob o anonimato e através de referências explícitas à organização que os acolhe.
Noutros blogs:
Jornalismo&Comunicação: «Estes relatos podem ser vistos como o reverso do jornalismo instalado, dominante nos discursos e nas representações da profissão. Mas são, por outro lado, "relatos do vivido" que normalmente não chegam à esfera pública senão em segunda mão, através de protagonistas que falam um "argot" já distante da experiência.»
Luis Santos (jornalista, autor do Atrium, em comentário no Ponto Média): «O que é problemático é que (...) que jornalistas profissionais tenham tão má imagem de si e do seu trabalho a ponto de pensarem que não haverá grande problema, uma vez que será quase tudo a mesma coisa.»
P.S. Para que fique claro, o meu interesse neste assunto explica-se, não só, mas em grande parte, por ser estudante na área de comunicação.
19.abr.04
Feito há quase duas décadas, acabou há minutos. Não sei se com a minha idade posso ser desculpado por só o ter visto pela primeira vez hoje, mas não deixa de ser a prova da intemporalidade de uma história extraordinariamente bem contada. Como com qualquer obra-prima, a vantagem de se ser o "último" a quem ela chega às mãos, é a sensação que fica de que foi pensada e trabalhada tendo em mente um único e longínquo destinatário no tempo e no espaço. Subitamente tem-se nas mãos o último exemplar sobrevivente, e à volta a única pessoa na sala de cinema somos nós. A história está a ser contada apenas para um espectador. África minha.
Os outros olhares: Abrupto
Um olhar muito próprio do mundo e a gravidade como estilo: o Abrupto.
O timing preciso e intencional é uma das principais características do Abrupto. Não é de uma agenda que se trata, mas antes de uma vivência muito particular a José Pacheco Pereira. JPP tem uma forma muito distinta de compassar a actualidade: não se deixa levar pelo curso dos acontecimentos, o que significa retomar várias vezes o mesmo assunto para pouco ou nada acrescentar. Pelo contrário, cada comentário ou intervenção sua aparece, em geral, cuidadosamente cronometrada, numa altura em que a poeira já assentou e em que o assunto precisa de ser tratado nas suas grandes linhas. De facto, após um acontecimento relevante no panorama nacional e internacional, pressente-se no tempo a emergência de uma reacção. Ali, até o silêncio, marcado pela ausência de posts, não passa despercebido.
O Abrupto deixou há muito de ser apenas um blog. É actualmente uma pequena publicação online, de actualização diária, recebida em casa por uma pequena audiência (enorme neste meio) de varias centenas de leitores e interessados. JPP percebeu melhor que ninguém, pela adesão prematura e pelo entusiasmo demonstrado, o potencial deste (ainda) novo e surpreendente meio. E continua a ser surpreendente. Não apenas por causa das utilizações que dele são feitas todos os dias, como também por aquilo que continua a movimentar e a transaccionar diariamente: a inteligência, a criatividade e a experiência vivida de algumas centenas de portugueses. A blogosfera é um mosaico virtual da conjuntura política e cultural da sociedade portuguesa em continuo alinhamento e multiplicação, e como tal um fabuloso registo das ideias e mentalidades (para bem e para mal) que caracterizam a nossa sociedade no começo do século XXI («Nunca a história esteve tão bem documentada. Nunca o futuro vai poder aprender tanto com o passado.» Pedro S., Microcosmos).
É por isso que um dos temas que gostava de ver abordados por JPP, no Abrupto ou em qualquer outro sítio, é a sua experiência enquanto blogger, passado praticamente um ano desde que abraçou a ideia. Centenas de milhares de visitas e uma quantidade igualmente surpreendente de e-mails e contactos (de todos os tipos e das mais variadas pessoas) depois, urge saber de que forma olha para trás, que promessas se perderam e que novas tendências identifica. De que forma é que se vê a si próprio, e ao seu blog, como pensa que é e que gostaria que fosse visto? As perguntas acumulam-se. Sinal de que o singular insight que JPP pode proporcionar sobre a blogosfera, em geral, é admirável e elucidativo.
Que impressões retém e que histórias gostava de partilhar relacionadas com a sua experiência enquanto blogger, que dissabores, surpresas e assombros coleccionou ao longo destes últimos doze meses? Em suma, gostava de testemunhar um distanciamento da sua parte em relação ao Abrupto, em jeito de "making of" ou de balanço, embora, como é óbvio, nada tenha sido concluído e tudo permaneça por dizer.
Acabo com uma referência a um post do Abrupto, intitulado Estrasburgo, um dia, e exemplar pelo pequeno e invulgar vislumbre que permite de outra vertente da vida do seu autor.
JPP: «A blogosfera, um neologismo aceitável porque transmite a ideia "atmosférica" e comunitária que os blogues ainda são, reflecte as correntes do resto do espaço público mais do que muitos dos autores de blogues pensam. Para além do carácter estético e literário de muitos textos, da utilidade dos blogues para o trabalho científico, do seu papel como "media" alternativos, eles aumentam a informação, e não são uma mera continuidade do "mundo exterior", acrescentando dimensões novas.»
Espelho Meu, Espelho Meu
18.abr.04
A distância que nos separa
Segredos: «Não, não estou a dizer que é vaidade ou exibicionismo, mas não me venham com histórias, se não se importam com o número de pessoas que vos lê, porque não escrevem antes num caderninho e o guardam bem guardadinho?»
A resposta, camuflada de questão: qual seria a piada nisso?
Precisamos de admitir, uma vez por todas, que estamos cada vez mais virados para o exterior e concentrados na busca do outro (seja da sua aprovação, interesse, reconhecimento, etc.). Pessoa fazia o inverso absoluto: encontrava o outro em si mesmo. Nós, bloggers, fazemo-lo na blogosfera. Lançamos as palavras ao vento e esperamos (sem pretender falar em nome de todos), lá bem no fundo, que aterrem algures, isto é, que encontrem um destinatário.
Embora ele já o tenha feito (e bem, a meu ver), não consigo responder adequadamente à pergunta feita no Segredos, talvez por se tratar de uma tensão difícil de gerir: por um lado, o esforço pela autenticidade absoluta, que atribuímos miticamente ao isolamento absoluto (o caderninho de que fala o Segredos), por outro, a tentação quase inconfessável de conhecer o número de visitas, a sua origem e duração. Existe, porventura, a sensação de que com isso se está a perverter todo o acto da escrita, como se este estivesse reservado para a intimidade de cada um e para o mais profundo despojamento.
Julgo que qualquer pessoa que assine um blog é incapaz desse exigente e anónimo recolhimento que significa escrever única e exclusivamente para si próprio. No entanto, não creio que se possa repreender alguém por isso. Aos meus olhos, o que é verdadeiramente repreensível é não ser capaz de reconhecer o significado dessa escolha em escrever, por exemplo, num blog, e não no tal “caderninho”. Negar que escrever “em público” é, inevitavelmente, sinónimo de escrever para um público (com as consequências que daí podem advir). Reconhecer, pelo contrário, que é disso que se trata é já um sinal de esforço de autenticidade. No fundo, esta questão realiza uma certa actualização do velho debate em torno do que é verdadeiramente literatura e aquilo que não passa de “mero” produto para consumo de massas.
Quanto à autenticidade do que vai sendo escrito diariamente na blogosfera, coloca-se o mesmo problema que aflige todos os outros campos da escrita. O problema do diferimento, ou do segundo momento. O segundo momento não é senão aquele que, por exemplo, todos os noticiários televisivos tentam disfarçar, e que está relacionado com o tempo que medeia entre a ocorrência de um dado acontecimento e a sua eventual divulgação na televisão. O segundo momento, o da divulgação, é o momento da edição e corte dos acontecimentos, daí que todos os elementos num noticiário, do estúdio ao grafismo, sejam pensados com vista a ocultar esse momento da edição. Caso contrário corria-se o risco de desmistificar, perante o telespectador, o corrupio e o frenesim que habitualmente se associa à preparação de um telejornal. Já imaginaram como seriam os noticiários televisivos sem a vista para a redacção nas costas do pivot, ou sem o teleponto? Todos estes elementos são estratégias (perfeitamente legitimas) que a televisão encontrou para que as pessoas em casa acreditem estar a assistir ao desenrolar dos acontecimentos (se não os acontecimentos em si, pelo menos aqueles que dizem respeito à construção do telejornal).
É em relação a esse segundo momento, de que dei o exemplo dos noticiários, que temos as nossas baterias apontadas, sempre prontas a emitir pareceres sobre a falsidade ou intencionalidade de alguém ou de algo.
E estou a divagar..
A minha dificuldade, pelo menos, é essa. Ser o mais sincero possível através de um teclado (podia ser uma esferográfica, um microfone, etc.), um objecto que afunila inevitavelmente tudo aquilo em que se está a pensar e que subitamente deixa de ser realista expressar totalmente. Não se trata apenas de não conseguir encontrar as palavras certas. O diferimento que existe sempre entre o pensamento e a sua expressão, seja por que meio for, permite desvirtuar até um certo grau o pensamento original, como, por exemplo, alguém que altera o seu discurso com vista a receber mais visitas...
Tudo isto para dizer que os problemas que a comunicação coloca ao homem não se resumem à sua vertente técnica (Internet, linguagem binária, etc.). A busca da sinceridade e da total adequação do falar ao nosso pensar constituem questões tão problemáticas e importantes de endereçar quanto, por exemplo, a redução do ruído (interferência) nos canais de comunicação técnica.
«Tu
Escrevo-te deste distante planeta chamado eu plasmado na ponta dos dedos e em uma ou duas teclas.»
Formato 1
Excerto de um artigo publicado no Público há alguns meses: «Nos seus pequenos territórios envidraçados, tudo pode ser dito sem castigo, tudo pode ser feito sem censura. São uma mistura de 'voyeurs' e exibicionistas em estilo 'soft', ora penteando-se demoradamente em frente ao espelho, ora despindo-se em suave 'striptease', ora espiando-se uns aos outros como querem que os espiem a eles. Para que escreve alguém senão para outro alguém, depois de para si mesmo?»
10.abr.04
Pausa forçada, por alguns dias.
09.abr.04
Boas e más notícias
As boas: as sondas gémeas da NASA, que nestes dias também estão a gozar umas curtas férias (o seu software de bordo está a ser actualizado), viram a sua missão formalmente prolongada mais cinco meses (link p/ a notícia), o que quer dizer que em Setembro ambas poderão ainda estar a estudar a superfície marciana (se até lá, uma ou ambas, não deixarem de estar operacionais). As más notícias: isso significa cobertura continuada dessa missão por mais alguns meses neste blog :/
Jackpot
Aqui por casa a conversa tem andado à volta do que cada um nós faria com 7 milhões de euros (já dá para imaginar a desilusão sábado à noite), nomeadamente a primeira coisa que cada elemento da família faria, ou adquiria, assim que soubesse da boa nova. Sim, isso mesmo, assim que soubesse, ou seja, ainda sem o dinheiro.. Escusado será dizer que o mais poupadinho foi mesmo a gata. Viagens a Nova Iorque, ao Brasil, ao Algarve, resumindo, ninguém aqui era visto tão cedo em Lisboa..
Agora a sério, é curioso reparar como as pessoas (está bem, nem todas) se deixam levar pela imaginação quando estão em jogo quantias tão absurdas de dinheiro fácil. O aumento no número de apostas numa semana de jackpot é prova disso mesmo, e de como até mesmo os mais realistas e desinteressados estão dispostos a tentar vencer as probabilidades.
Mas também existe um lado menos positivo, e menos conhecido, que mostra o quanto ganhar no jogo da sorte nem sempre é sinónimo de bem-estar e prosperidade garantidas.
«Para ela, ganhar o Totoloto é uma curta viagem ao Paraíso, com bilhete de volta para as profundezas e quatro escalas bem definidas: primeiro a fortuna, depois o desperdício, enfim a desgraça - e, em algum momento lá pelo meio, a loucura. Foi isso que lhe destruiu o avô, um pobre jornaleiro a quem entregou a vida. (...)
É difícil determinar um padrão: alguns mudaram o Mundo com prémios modestos, como no milagre da multiplicação dos pães, e outros desperdiçaram somas astronómicas em pouco tempo, como nos melhores romances de ascensão e queda. Mas poucos estarão mesmo ricos - e, entre os que o estão, muitos recusam falar no assunto, empenhados em fazer esquecer as origens fortuitas da sua riqueza.»
É o excerto de um interessante artigo de Joel Neto, publicado na revista Focus (encontrado via Google), e que pode ser lido na íntegra aqui: Milionários por acaso.
O quarto poder

De baixo para cima, os poderes executivo, mediático e legislativo, juntos na mesma sala.
07.abr.04
Sequela Janet Jackson: a mercadoria
Vê-se mesmo que estou alojado nos Blogs do Sapo: isto é tão estúpido, quanto original (argh, eu prometi a mim mesmo que não ia ceder ao post fácil..).
Relações públicas
A última auto-promoção do canal National Geographic: "Veja o que a Natureza tem de fazer para que você não mude de canal."
Hm.. bem pensado.
Acidente da urbanidade
A expressão encontrei no torneiras de freud, mas também explica inesperadamente bem a história da fotografia ao lado. Uma mulher lê um livro num dia chuvoso enquanto espera pelo autocarro em Washington DC. Um daqueles momentos que se pode acender e apagar à frente de todos sem alguém lhe dar qualquer importância. Assim teria acontecido, se um fotojornalista do Washington Post, encarregado de ilustrar o estado do tempo nesse dia, não tivesse reparado nela e tirado uma fotografia, só a tempo de lhe perguntar aos berros o seu nome enquanto subia para o autocarro. Ficou com um nome, mas também com um mistério que, nos dias seguintes à sua publicação na secção de meteorologia do Washington Post, desencadearia uma reacção, por parte do público, ainda maior que aquela provocada com a publicação das imagens explícitas e perturbadoras dos corpos carbonizados de soldados e civis americanos nas ruas de Fallujah.
Talvez seja melhor falar em acidente da modernidade, em que a reprodução maciça de um momento tão trivial quanto este, nos média, desencadeia um esquadrinhamento de cada pormenor da fotografia por algumas dezenas de leitores mais atentos, e na sua continuação, várias tentativas para identificar e encontrar a mulher retratada. O intuito, descobrir tão-só a razão porque esta transeunte, de acordo com a fotografia, aparentava estar a ler um livro virado ao contrário.
A investigação que se seguiu, em mais detalhes, neste artigo da conceituada Slate (e as respostas que vieram a seguir de alguns dos leitores que o leram).
Brinquedos caros (act.)
Como todas as imagens do trânsito que os noticiários televisivos da manhã nos apresentam, também as do helicóptero da TVI podiam ter sido gravadas noutro dia e ninguém dar por isso (terá alguma coisa a ver com o facto de todos os dias a situação retratada ser a mesma?), mas existe qualquer coisa no acto de sobrevoar directamente os pilares da ponte 25 de Abril, às 8 da manhã e em directo para todo o país, que confere à TVI, a meu ver, a vantagem.
06.abr.04
Falar de tudo, falar de nada
Aquilo que me dá mais gozo em ter um blog é mesmo o poder de decidir sobre o tema do próximo post. Nesse momento, nem o céu é o limite, nem o mundo o ponto de partida.
Experiências
«aqui acontecem coisas fantásticas e podem ser ditas», diz uma leitora d' A Natureza do Mal. E é verdade. A última dessas coisas parece ser a publicação de vários testemunhos que chegam espontaneamente de bloggers e não-bloggers sobre as suas livrarias preferidas. É preciso mesmo ler para perceber o transe em que algumas pessoas entraram ao descreverem as suas livrarias predilectas. É como se estivessem a sonhar em voz alta. Coisas que só acontecem ali, onde o mal encontra o conforto do sofá do psicólogo.

Pode ser um gigantesco feito, colocar com sucesso dois robots a explorar e estudar a superfície de Marte, porém, quando os cientistas da Nasa e outros entusiastas (através da internet) se debruçam sobre as várias centenas de fotografias tiradas pelas sondas em cada dia, é preciso que alguém, tão simples quanto isto, se pasme. Com as paisagens, com as estranhas formações rochosas, com os únicos vestígios de intervenção do Homem em Marte (as marcas das rodas das sondas, os airbags, etc), com a superfície plana e deserta que a Opportunity descobriu ao sair da cratera, com a proximidade dos montes que a Spirit tenta alcançar, etc.
As máquinas estão lá, a fazer o seu trabalho, tal e qual foram programadas para o fazer. Mas só isso não é nada. Elas não pensam, não estão conscientes do verdadeiro significado que é tocar, perturbar e remexer solo marciano ou ter ao alcance substâncias e materiais alienígenas, nunca antes analisados por qualquer geólogo humano. Todos estes posts acerca de Marte, e esta montagem, são a minha pequena forma de dizer que partilho desse deslumbramento e entusiasmo que estas sondas nos permitem em diferido, às vezes a preto e branco, às vezes a cores.
Talvez o mais importante feito destas sondas venha a ser o mais inesperado: provar que com todas as tecnologias e recursos de que dispomos actualmente, e que ainda podem ser dramaticamente aperfeiçoados, o envio de homens a Marte não é, afinal, assim tão urgente ou mais produtivo (embora seja indiscutível o seu simbolismo). As milhares de imagens e dados enviados pela Spirit/Opp. só vieram, paradoxalmente, elevar a barra das expectativas. Ir a Marte, daqui em diante, terá de significar fazer um melhor trabalho que a Thelma & Louise robóticas. Um desafio que cresce em dificuldade a cada nova curva e descoberta pelas sondas em Marte.
O Segredos faz jus ao nome. Destapa sempre só o suficiente, de modo que quem o lê fica com a sensação que algo mais ficou por contar. Umas vezes mais subtil, outras vezes nem tanto.
Máquina de preferências e recusas
Estava a pensar numa lista de características ou aspectos que fazem com que não goste imediatamente de um blog (1), mas achei que seria mais construtivo, e menos presunçoso, uma abordagem menos negativa. Tentei antes enumerar algumas das razões porque gosto dos blogs que leio. Não se espere nada de muito original, e também não são "critérios", porque estes funcionam a priori.
É um exercício fácil, em que basta atirar razões e frases bem pensadas ao ar, mas são sinceras.
Só raramente existe nas suas palavras um significado literal.
O humor.
A criatividade.
Sabem jogar tão bem com os silêncios quanto com as palavras.
A dúvida também os assola. E deixam espaços em branco para opiniões diferentes, porque, não abdicando das suas convicções, também estão receptivos e conscientes delas.
O mundano também marca o discurso dos dias, mas lá de longe, tal como o estado do tempo influencia as nossas vidas, sem que tenhamos de estar constantemente a apontar para o céu.
Dizem sempre mais do que aquilo que de facto dizem, e menos do que aquilo que sabem.
Emprestam novas e diferentes perspectivas. Ou porque reforçam e afinam outras já existentes.
Porque o último post é sempre uma antecipação do próximo.
Estas chegam.
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(1) «Somos, antes de mais, um sistema nato de preferências e rejeições. Cada um de nós tem, mais ou menos coincidente com o dos outros, o seu sistema carregado e pronto a disparar pró ou contra, como uma bateria de simpatias e repulsas. O coração, essa máquina de preferências e de recusas, é o suporte da nossa personalidade.»
Ortega y Gasset, Estudos sobre o Amor
05.abr.04
A ouvir
Na íntegra, com o título perfeito, Pounding - Doves.
Angiografia coronária

As verdadeiras artérias de Lisboa. É provavelmente aquilo que mais prende o meu olhar quando percorro o centro da cidade, as ramificações das árvores que toldam as ruas e a forma brutal como os seus troncos irrompem pelo passeio. Num contexto tão citadino, cheio de prédios, de automóveis e de "mobília urbana" a omnipresença destes seres vivos inamovíveis torna-se um motivo de espanto.
Árvores que se agitam à passagem de enormes correntes de ar, formadas pelo traçado das ruas e que as inundam da mesma forma que um fluxo de água inunda um canal, e em que as suas ramificações actuam como autênticos alvéolos à escala da natureza, trocando oxigénio por dióxido de carbono. Está tudo programado para funcionar. Um sistema planetário de bombeamento e de produção de oxigénio, condição essencial à vida humana. Um suporte de vida que se auto-regula, como um sistema de rega que sabe as horas exactas a que deve regar as plantas, etc. A Natureza, tal como a consigo conceber, assemelha-se a um relógio (a analogia não deve ser nova), em que todas as peças desempenham uma determinada função com vista a um único resultado: dar as horas. A pergunta que se coloca é para quem, e porquê.
Entretanto, em Marte, as duas sondas da Nasa deixam para trás os locais que estudaram tão intensivamente nos passados meses, e iniciam os seus respectivos percursos até aos pontos "turísticos" mais relevantes nas imediações. No caso da Opportunity (imagem), uma cratera muito maior que as outras até aqui, no da Spirit, os Montes Columbia (em honra da tripulação do Columbia), que estão a cerca de 2,3 quilómetros da sua posição inicial.

É também um período de emancipação para as sondas, pois daqui em diante a sua prioridade consiste em chegar aos seus destinos finais o mais rapidamente possível (enquanto conseguirem produzir e armazenar energia suficiente), o que significa que dependerão mais dos seus sistemas de bordo do que das instruções dos controladores da Nasa, para encontrarem o caminho mais seguro e económico.
Na melhor das hipóteses, serão precisas algumas semanas até alcançarem os seus objectivos.
Relacionado: Uma certeza (publicado em Março)
A todo o momento, alguém é confrontado com situações e decisões limite que o arremessam para fora da normalidade dos dias. O novo, e o espantoso, é poder ficar a saber, através de um blog, do funcionamento real da teoria das probabilidades, e da extracção dessas décimas percentuais da população que esta manhã tiveram tudo menos uma manhã normal. O Pedro, no Microcosmos, tem hoje uma dessas histórias que atestam a capacidade do inesperado para surgir do nada e virar tudo do avesso.
01.abr.04
Gmail
É o novo serviço de e-mail gratuito que o Google espera lançar nas próximas semanas, e que oferecerá 1 Gigabyte de espaço de armazenamento (muitas vezes mais que a concorrência).
> CNN: Google to offer 1 gig of free e-mail
> Gmail
Pegadas familiares
Este blog começou como qualquer blog de um adolescente. Era eu, a minha gata e as imagens que naquela semana de Julho me tinham espantado - o tipo de blog a que nunca regressaria, não fosse eu o seu autor. Era destinado ao círculo (quadratura?) de amigos mais próximos, mas uma escorregadela na actualidade foi o suficiente para me pôr em bicos de pés e pensar que tinha algo para dizer. Não sei quantos meses depois, continuo a falar (e a achar que escrever num blog, da maneira como eu o faço, não é propriamente um exercício de escrita) para o vazio. Não sei quem por aqui passa, mas sempre tive a noção de que há muito tempo que deixara de ser lido por quem precisamente comecei por dedicar o icosaedro. Já basta aturarem-me ao vivo e a cores, quanto mais em versão blog.. nesse sentido, não os censuro.
Até que comecei a receber, inesperadamente, o meu primeiro feedback de pessoas com quem convivo diariamente. Colegas de curso, melhor dito, amigos de curso, que me confrontaram subitamente com o que aqui vai sendo dito. É como se de repente alguém expusesse o nosso guarda-fatos na rua. OK, a comparação é absurda, e excessivamente traumática (lol), mas quando se fala sem ter em conta qualquer interlocutor, qualquer pessoa do outro lado, é inesperado, no mínimo, receber resposta.
Hoje, novamente, do nada, mais um eco, desta vez originário dessa quadratura que referi antes. Não sei com que frequência passam aqui, se lêem tudo, se concordam ou gostam do que lêem, mas o simples facto de aqui terem estado empresta-me, sempre, um novo fôlego. Dora, Andreia, Ricardo, Carolina, Maria, são nomes que constam deste blog, apesar de nunca terem sido referidos. Aquilo e aqueles que puxam por nós, mesmo sem o saberem, estão sempre presentes naquilo que fazemos.
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